Sunday, 30 June 2013
Balada das flores invisíveis
A moça caminha com o cachorro maldizendo a tarefa.
Pensa no sofá quente, no conforto das luzes amarelas das janelas que já se acendem, fazendo a tarde lilás do lado de fora escurecer mais depressa.
Pega o caminho mais deserto, a fim de evitar qualquer contato com a humanidade, com risos que não são seus e vidas que não terá. Quer apenas a mediocridade do sofá quente. O cachorro não lhe inspira amor, não naquele momento. Vai ele na frente seguindo as ordens de seu focinho, seguindo as pistas invisíveis de seus desejos simples de cão.
E então
no meio de um caminho um cheiro.
Cheiro de flor que só abre à noite.
Procura a moça pela flor. Não acha.
Sente só o aroma doce que denuncia sua beleza escondida.
Inesperadamente a rua se enche de possibilidades misteriosas como aquele cheiro.
O passeio com o cachorro ganha a crosta açucarada da poesia.
A noite se enche de um brilho prateado que ofusca bruscamente as luzes amarelas.
Ela começa a assobiar uma balada,
uma ode aos cheiros invisíveis que nos guiam - cão e homem -
noite afora.
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